Opinião | A distopia do bom senso: ataques ao Carnaval e o preconceito religioso

Nos últimos anos, temos visto um fenômeno preocupante: o uso do chamado “bom senso” como justificativa para ataques à cultura popular, especialmente ao Carnaval, e para a perpetuação do preconceito e da intolerância religiosa contra religiões de matriz africana. Em um cenário que se assemelha a uma verdadeira distopia, valores como diversidade, liberdade cultural e religiosa vêm sendo colocados em xeque sob o argumento de uma moralidade seletiva.

O Carnaval, uma das maiores expressões culturais do Brasil, tem sido alvo de críticas que vão além de questões administrativas ou de segurança pública. Muitos ataques se baseiam em visões moralistas e discriminatórias. Há quem associe o Carnaval ao “desvio de valores” e ao “desperdício de recursos”, ignorando sua relevância econômica, social e cultural. É uma festa que movimenta bilhões, gera empregos e, mais importante, celebra a diversidade do povo brasileiro.

Mas o que realmente preocupa é a forma como essas críticas, travestidas de “bom senso”, escondem preconceitos mais profundos. O Carnaval, com toda sua riqueza cultural, está profundamente ligado às tradições afro-brasileiras. Escolas de samba, blocos e manifestações culturais trazem elementos das religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda. Ao atacar o Carnaval, muitos acabam, consciente ou inconscientemente, reforçando a intolerância contra essas religiões.

Essa intolerância religiosa se manifesta de diversas formas: de comentários pejorativos a ataques físicos a terreiros. Religiões de matriz africana, que fazem parte da identidade e da história do Brasil, são sistematicamente alvo de preconceito. E o discurso do “bom senso” muitas vezes serve para mascarar esse racismo religioso, apresentando-o como preocupação moral ou cultural.

Em Blumenau, por exemplo, a resistência cultural da Escola de Samba Mocidade Salto do Norte é um símbolo dessa luta. Sob a liderança do incansável Mestre Djime, a agremiação enfrenta não apenas dificuldades financeiras e falta de apoio, mas também o preconceito de uma sociedade que ainda reluta em aceitar a cultura afro-brasileira como parte legítima da identidade local. Mesmo diante de tantas barreiras, a Mocidade Salto do Norte persiste, mantendo viva a tradição do samba e do Carnaval na região.

É importante lembrar que o Estado brasileiro é laico. Isso significa que todas as religiões devem ser respeitadas, sem privilégios ou perseguições. Tentar impor uma visão religiosa única à sociedade é negar a diversidade que nos constitui.

O Carnaval e as religiões de matriz africana representam a resistência de um povo que lutou – e ainda luta – por liberdade e reconhecimento. São expressões vivas da cultura afro-brasileira, que moldou a música, a dança, a culinária e tantas outras dimensões do Brasil.

Precisamos refletir sobre o que está por trás do discurso do “bom senso”. Será que ele realmente busca o bem comum? Ou serve para silenciar culturas, práticas religiosas e formas de expressão que fogem a uma visão conservadora e excludente?

Valorizar o Carnaval é valorizar o Brasil em sua essência plural. Respeitar as religiões de matriz africana é reconhecer a importância de uma herança cultural e espiritual que ajudou a construir nossa identidade. Em tempos de intolerância disfarçada, é fundamental reafirmar esses valores. Afinal, o verdadeiro bom senso é o que promove o respeito, a inclusão e a liberdade.

Marco Antônio André, advogado e ativista de Direito Humanos

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