Dia da Libertação: Por Que 2 de Abril é Um Dia Decisivo para Donald Trump

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Dia da Libertação. É assim que Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, se referiu ao dia 2 de abril. Nesta tarde, às 17h, o chefe da Casa Branca planeja divulgar ao mundo a sua (extensa) lista de taxações sobre importações. 

Restringir as importações norte-americanas por meio de tarifas comerciais já havia sido uma política de seu primeiro mandato, afetando a China e alguns de seus principais aliados. Uma nova guerra comercial começou a se desenhar ainda durante a campanha presidencial. A razão? Para Trump, as tarifas são uma forma de forçar a “reindustrialização” americana, valorizar a produção nacional e, claro, ferir economicamente os seus principais rivais. 

A guerra comercial que se desenha tem dominado o noticiário desde o início do novo mandato de Trump. Até agora, China, Canadá e México foram as nações mais prejudicadas, com tarifas já em vigor, mas isso deve mudar hoje. Nas últimas semanas, sem dar maiores detalhes, Trump prometeu taxar “todos os países” com os quais os Estados Unidos mantêm algum tipo de relação comercial e a importação de qualquer tipo de veículo, aço ou bebidas alcoólicas europeias. Além disso, aqueles que comprarem petróleo e gás da Venezuela também devem ser afetados. 

O presidente americano afirma que as tarifas prometidas terão efeito imediato, mas pouco se sabe sobre a abrangência e intensidade das ações que serão anunciadas. A incerteza sobre o real impacto do cenário comercial tem mantido o mercado financeiro como refém — e as bolsas americanas acumulam perdas expressivas em 2025. 

Segundo economistas do UBS, em relatório para clientes, seriam necessárias 2,5 milhões de tarifas individuais para um plano de tarifas recíprocas completo, levando em conta produto por produto e país por país. Eles apontam que é “improvável” que Trump  consiga implementar tal política em um curto espaço de tempo. 

Alguns líderes europeus definiram o momento atual como uma “desordem econômica”. A forma atrapalhada e pouco concreta como as promessas vêm sendo apresentadas deixam dúvidas se Trump realmente pretende colocá-las em prática ou apenas “blefar” para conseguir a renegociação de contratos comerciais que considere mais vantajoso. 

“O ‘Dia da Libertação’ pode ou não libertar os mercados da pressão crescente em que se encontram devido à política comercial dos EUA. Investidores e gestores de empresas não gostam de incerteza, e a forma fragmentada e imprevisível com que os anúncios tarifários estão sendo feitos está gerando muita”, apontam o gerente de portfólio da Janus Henderson, Oliver Blackbourn, e o chefe global de multi-ativos, Adam Hett, em artigo. 

Não é só o mercado financeiro que espera por uma definição deste capítulo da Guerra Comercial. Segundo uma pesquisa de sentimento do consumidor da Universidade de Michigan, aponta que os consumidores americanos acreditam em uma inflação de 5% no próximo ano, já que as tarifas tendem a encarecer os produtos no mercado interno. 

Marcos Moreira, sócio da WMS Capital, também aponta que à medida que as tarifas avançam, há também um aumento proporcional nas pressões inflacionárias, tornando mais difícil o cenário para os bancos centrais. As apostas em cortes de juros nos EUA, por exemplo, estão cada vez mais fora da mesa. 

E o Brasil? 

José Cassiolato, sócio da RGW Investimentos, aponta que o Brasil tem uma economia relativamente mais fechada em comparação com outras nações — o que reduz o peso do comércio exterior sobre o PIB. “Isso poderia sugerir uma maior resiliência diante das novas tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos. No entanto, essa característica se deve, em grande parte, às próprias tarifas aplicadas pelo Brasil. Em um cenário de equivalência tarifária, setores estratégicos da economia nacional podem ser significativamente impactados”, aponta. 

A estimativa é que, caso as tarifas recíprocas entrem em vigor, o Brasil possa ser atingido por uma taxação próxima de 20% em uma série de produtos. Embora ainda não tenha oficializado nenhum tipo de medida de contra-ataque, a comunicação do governo aponta para uma possibilidade de retaliação. Moreira, da WMS Capital, no entanto, aponta que há pouco espaço para que essas retaliações ocorram, já que a maior “dependência” das exportações brasileiras pode acarretar em maiores problemas para a inflação. 

A menor participação do comércio exterior no PIB não significa que a economia brasileira estaria imune a possíveis abalos. No ano passado, o superávit comercial de US$ 74,5 bilhões foi um dos principais responsáveis pelo equilíbrio da oferta de dólares na economia e a sustentação dos patamares do real. Ou seja, qualquer mudança substancial nos fluxos comerciais pode afetar diretamente o câmbio e a inflação.

A composição da balança comercial também pesa sobre o tamanho do impacto das taxações por aqui. Segundo o Comex Stat, o Brasil exportou US$ 40,3 bilhões para os Estados Unidos em 2024, enquanto importou US$ 40,5 bilhões. O país de Trump é o segundo maior importador de produtos brasileiros, representando 12% do total, atrás somente da China, que registrou 28% das exportações no último ano. As estimativas apontam um impacto de até US$ 15 bilhões na balança comercial. 

No entanto, as exportações para o país asiático são, em sua maioria, da indústria extrativista e agronegócios, enquanto 80% dos produtos vendidos aos EUA vêm da indústria de transformação, com maior valor agregado e de maior impacto no desenvolvimento econômico do Brasil. Esses são justamente os produtos mais afetados pelas promessas tarifárias de Trump, mas não isenta o agronegócio brasileiro de também sentir os reflexos dessas mudanças. 

Por se tratar de um mundo globalizado, impactos comerciais são inevitáveis, mas Lucas Sigu Souza, sócio-fundador da Ciano Investimentos crê que os efeitos podem ser menores do que outras localidades e, quem sabe, até mesmo beneficiar o país em termos de fluxo de entrada de capital estrangeiro. 

O efeito real, no entanto, só será calculável após os planos de Trump finalmente ganharem a luz do dia.

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