Oscar: Mulheres Levaram Menos de 18% dos Principais Prêmios

Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo.

 

A 97ª cerimônia do Oscar acontece neste domingo (2), no Dolby Theatre, em Hollywood. Em quase um século da maior premiação do cinema, as mulheres não chegaram a 18% dos vencedores dos principais prêmios, aqueles entregues na noite mais aguardada da indústria.

De todas as 1695 vitórias em 18 das principais categorias do Oscar (com exceção de Melhor Ator e Atriz, Melhor Ator e Atriz Coadjuvantes e Melhor Filme Internacional, em que o prêmio é atribuído ao país), apenas 17,88% foram para mulheres ou grupos com ao menos uma mulher. Isso significa que 82,12% das vitórias foram concedidas exclusivamente a homens.

“Mulheres fazem filmes desde os primórdios do cinema — Alice Guy [cineasta francesa] foi uma delas — e foram raras as vezes em que elas foram reconhecidas no Oscar, especialmente no século passado”, afirma Barbara Demerov, crítica de cinema e votante no Globo de Ouro. Segundo ela, os números refletem a falta de inclusão da Academia e o fato de Oscar ser uma premiação nichada e focada em produções dos Estados Unidos.

Os dados são de um levantamento exclusivo sobre Mulheres no Oscar, realizado pela empresa de pesquisa Hibou a pedido da Forbes Brasil.

As categorias do Oscar com mais e menos (e nenhuma) vitórias femininas

Nas principais categorias do Oscar que premiam tanto homens quanto mulheres, apenas duas tiveram mais vitórias femininas (individualmente ou em grupos com pelo menos uma mulher): Figurino, com 69% dos prêmios, e Maquiagem, com 61%. “As mulheres são frequentemente associadas à valorização da beleza, da maquiagem e dos cabelos, áreas que não são atribuídas aos homens”, observa Isabella Faria, crítica de cinema e também votante do Globo de Ouro.

As categorias Documentário de Curta-Metragem e Documentário aparecem logo em seguida com a maior representatividade feminina entre os vencedores: 45% e 29%, respectivamente.

Em contrapartida, alguns prêmios se destacam pela presença mínima – ou até pela ausência – de mulheres entre os vencedores. Em Fotografia, por exemplo, nenhuma mulher foi premiada entre os 126 troféus entregues ao longo das 96 edições do Oscar. Até 2025, apenas 3 mulheres foram indicadas na categoria: Mandy Walker, em 2023, por “Elvis”; Ari Wegner, em 2022, por “Ataque dos Cães”; e Rachel Morrison, em 2018, por “Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi”.

Onde estão as diretoras?

A disparidade de gênero também fica escancarada no prêmio de Melhor Direção, um dos mais importantes da noite. Ao longo da história do Oscar, apenas nove mulheres foram indicadas na categoria e três levaram o prêmio: Kathryn Bigelow, em 2010, por “Guerra ao Terror”; Chloé Zhao, em 2021, por “Nomadland”; e Jane Campion, em 2022, por “Ataque dos Cães”. O número de vitórias femininas representa 3% do total na categoria. “Mesmo quando há mais de uma cineasta em destaque e na ativa, é difícil ver mais de uma mulher indicada na categoria de Melhor Direção”, afirma Demerov.

Isso aconteceu apenas uma vez, em 2021, quando Zhao levou o prêmio e Emerald Fennell também havia sido indicada pela direção de “Bela Vingança”.

Chris Pizzello-Pool/Getty Images

Chris Pizzello-Pool/Getty Images

Chloe Zhao, segunda mulher a ganhar um Oscar de direção, por “Nomadland”, que também ganhou como Melhor Filme em 2021

As categorias com menor presença feminina entre os vencedores, em geral, estão em áreas mais técnicas. Além de Fotografia e Direção, os percentuais mais baixos de premiação para mulheres aparecem em Trilha Sonora (3%), Efeitos Visuais (5%) e Som (6%). “Mulheres são invisibilizadas até mesmo em categorias nas quais foram pioneiras”, observa Faria. Um bom exemplo é a categoria de Melhor Montagem (18%), cuja história explica a maior representatividade feminina – ainda que longe da paridade de gênero. “Na época pré-digital, o trabalho de montar um filme era cortar pedaços e colar. E, na mentalidade sexista do período, isso se assimilava ao trabalho de costura”, explica o crítico de cinema Pablo Villaça. “Tivemos editoras primorosas, responsáveis por trabalhos maravilhosos, mas que nunca foram reconhecidas”, diz Faria.

Proporção de mulheres vencedoras nas principais categorias do Oscar*

Melhor Fotografia – 0%
Melhor Direção – 3%
Melhor Trilha Sonora – 3%
Melhores Efeitos Visuais – 5%
Melhor Som – 6%
Melhor Roteiro (Original e Adaptado) – 12%
Melhor Filme – 14%
Melhor Curta-Metragem de Animação – 15%
Melhor Curta-Metragem – 16%
Melhor Montagem – 18%
Melhor Animação – 19%
Melhor Canção Original – 20%
Melhor Design de Produção – 23%
Melhor Documentário – 29%
Melhor Documentário Curta-Metragem – 45%
Melhor Maquiagem e Penteado – 61%
Melhor Figurino – 69%

*Categorias classificadas da menor para a maior representatividade feminina entre os vencedores. O levantamento considera prêmios concedidos exclusivamente a homens, exclusivamente a mulheres e a grupos com pelo menos uma mulher.

O levantamento traz um recorte de gênero, mas é possível afirmar que as disparidades seriam ainda mais claras ao incluir outros grupos minorizados. “A representatividade racial no Oscar é pífia. Melhorou nos últimos anos porque a Academia foi muito pressionada para que isso acontecesse, mas ainda estamos muito aquém de onde podemos chegar”, diz a crítica Isabella Faria.

Getty Images

Em 2014, Lupita Nyong’o recebeu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “12 Anos de Escravidão”

Mulheres no Oscar na última década

A disparidade de gênero na premiação não se limita às primeiras décadas do Oscar, quando o reconhecimento das mulheres na indústria cinematográfica era ainda mais restrito. O cenário persiste ao longo dos anos, refletindo desigualdades estruturais que continuam a impactar a premiação e a indústria.

Ao analisarmos individualmente os vencedores dos últimos 10 anos, incluindo as premiações por atuação (Melhor Ator e Atriz, e Melhor Ator e Atriz Coadjuvante), observamos que, entre as 438 estatuetas entregues aos vencedores, apenas 26,71% foram para mulheres.

O recorde histórico de mulheres premiadas no Oscar ocorreu em 2021, quando 17 estatuetas foram entregues a mulheres, enquanto 30 foram concedidas a homens.

Ainda assim, houve edições em que o número de mulheres vencedoras foi alarmantemente baixo. Em 2018, o pior ano para as mulheres nos últimos 10 anos da premiação, apenas 6 receberam estatuetas, em comparação com 33 homens.

Academia quer ampliar a diversidade

Após a polêmica campanha #OscarsSoWhite (#OscarsTãoBrancos, em inglês), que ganhou força nas redes sociais em 2016, pedindo mais diversidade na premiação de Hollywood, a Academia anunciou mudanças para ampliar a representatividade entre seus membros.
“Na última década, as mudanças têm acontecido de maneira bem rápida. A Academia praticamente dobrou de tamanho nos últimos oito anos, dando preferência a pessoas pertencentes a minorias históricas”, afirma Pablo Villaça.

A implementação dessa política, em 2020, foi uma iniciativa da ex-diretora executiva da Academia, Dawn Hudson. “Acreditamos que os padrões de inclusão serão um catalisador para mudanças essenciais e duradouras em nossa indústria”, dizia uma nota conjunta assinada por Hudson e pelo presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, David Rubin. “Há uma preocupação mais clara por parte da Academia, mas os problemas não foram resolvidos de uma edição para a outra. A mudança ainda é gradual e pontual”, diz Barbara Demerov.

O que esperar do futuro do Oscar

Mais recentemente, no entanto, o avanço das mulheres nos bastidores da indústria cinematográfica parece ter perdido força. É o que mostra um relatório assinado por Martha Lauzen, diretora executiva do Center for the Study of Women in Television and Film da San Diego State University.

O levantamento analisou os 250 filmes de maior bilheteria de 2024, e os dados refletem um retrocesso da participação feminina em cargos de diretores, roteiristas, produtores, produtores executivos, editores e diretores de fotografia. “Avançamos muito há alguns anos, mas sinto que agora vamos ver um retrocesso. Em menos de 15 ou 20 anos, acho muito difícil conseguirmos um Oscar com igualdade de gênero”, analisa Faria. “Ainda há um longo caminho até que o Oscar seja verdadeiramente igualitário, especialmente se a ideia de misturar os gêneros nas categorias de atuação for implementada”, diz Barbara Demerov.

Apesar disso, muitas mulheres têm feito história na premiação nos últimos anos. Quando uma delas é premiada, especialmente em categorias historicamente dominadas pelos homens, a indústria como um todo é impactada, e novas gerações são inspiradas. No ano passado, Jennifer Lame levou o prêmio de Melhor Montagem por seu trabalho em “Oppenheimer”, o favorito da última edição do Oscar. “Quando as mulheres chegam ao topo e são reconhecidas pelos seus trabalhos, meninas mais novas que querem seguir essa carreira começam a enxergar esse caminho com esperança”, diz Faria.

Getty Images

Jennifer Lame levou o Oscar de Melhor Montagem por “Oppenheimer”, que ganhou sete estatuetas no Oscar 2024

Além do exemplo, o caminho para aumentar a representatividade feminina envolve investir na formação de meninas e mulheres e implementar iniciativas voltadas para a diversidade. “O que aumenta a chance de entrada e ascensão de outras profissionais na indústria é uma política de inclusão”, diz Pablo Villaça.

Estudos mostram que a liderança feminina provoca um efeito cascata, abrindo espaço para mais mulheres em posições de destaque em toda a produção cinematográfica. Além de impulsionarem profissionais da indústria, diretoras e outras mulheres no cinema enriquecem as produções com novas perspectivas, abordagens e vivências. “Frequentemente, vemos cenas de sexo em que o corpo da mulher está exposto e o do homem não. Ter diretoras mulheres e pertencentes a minorias permite que as histórias sejam contadas a partir de uma ótica diferente”, afirma Villaça.

Longas como “A Substância”, de Coralie Fargeat, e “Babygirl”, de Halina Reijn, são exemplos disso. “Levar histórias femininas para as telas também significa trazer mais mulheres para o mundo do cinema, mesmo que como espectadoras, porque elas vão se identificar com os filmes”, defende Isabella Faria.

coralie fargeat

coralie fargeat

Indicada ao Oscar de Melhor Direção, Coralie Fargeat também concorreu na categoria no Globo de Ouro e no BAFTA

Metodologia

As informações foram obtidas por meio de um levantamento exclusivo sobre Mulheres no Oscar realizado pela empresa de pesquisa Hibou a pedido da Forbes Brasil e liderado por Ligia Mello e Marcelo Beccaro. A análise foi feita por meio de consulta primária à base pública oficial de ganhadores do Oscar, seguida de etapas de validação manual com auxílio de ferramentas de inteligência artificial.

A porcentagem de mulheres entre os vencedores do Oscar ao longo da história leva em conta a quantidade de vitórias exclusivamente de mulheres ou de grupos com ao menos uma mulher em relação ao total. Foram contabilizadas as vitórias por categoria, e não por indivíduo.

Algumas categorias foram agrupadas devido a mudanças na nomenclatura ao longo das edições, como Melhor Som, Melhores Efeitos Sonoros e Melhor Edição de Efeitos Sonoros.

A categoria de Roteiro, atualmente dividida em Roteiro Original e Adaptado, também foi considerada de forma unificada.

No caso de Fotografia, por exemplo, houve edições em que dois prêmios foram entregues, resultando em um número de premiações superior ao de edições do Oscar.

Além disso, nem todas as categorias existem desde o início da premiação, o que impacta a contagem total de vitórias.

O post Oscar: Mulheres Levaram Menos de 18% dos Principais Prêmios apareceu primeiro em Forbes Brasil.

Adicionar aos favoritos o Link permanente.