Operação Presságio: qual o papel de cada investigado no esquema de corrupção em Florianópolis

Os desvios de dinheiro público, através do repasse de verbas da Secretaria Municipal de Turismo, Cultura e Esporte de Florianópolis para instituições assistenciais, revelado pela Operação Presságio, indiciou 23 pessoas nessa quarta-feira (3). Segundo a Polícia Civil, cada investigado ocupava um papel estratégico dentro da organização, que tinha como finalidade o “desvio de verbas” e “recebimento de vantagens ilícitas”.

Organograma mostra como funcionava o esquema de corrupção investigado pela operação Presságio – Foto: Reprodução/ND

O grupo investigado é suspeito de lesar os cofres municipais em cerca de R$ 10 milhões. O relatório final da primeira fase da Operação Presságio concluiu que a organização criminosa, formada dentro da administração municipal, era composto por quatro núcleos:

  • Liderança, ocupada pelo ex-secretário, Ed Pereira;
  • Núcleo administrativo e financeiro, formado por Samantha Santos Brose e Renê Raul Justino;
  • Núcleo operacional, constituído por Gilliard Osmar dos Santos, Lucas da Rosa Fagundes, Cleber José Ferreira, Adriano de Souza Ribeiro, Leonardo Silvano, Gabriel Antônio Euzébio, Guilherme Dias Pires, Filipe André Caetano e Renan Dias Pires;
  • Núcleo dos laranjas, do qual faziam parte Ezequiel Luiz Costa de Lima, Daniel Rodrigues Ribeiro de Lima, Robson Vilela, Evellyn Caroline da Silva, Tanaiha Lima Justino e Vanessa Espindola Martinelli.

Qual era a função de cada indiciado pela Operação Presságio?

  • Ed Pereira

A Polícia Civil aponta, no inquérito policial, que o ex-secretário de Turismo de Florianópolis, Ed Pereira, era o líder da organização criminosa formada dentro da pasta. Conforme apurado pela reportagem do ND Mais, ele é considerado o principal investigado da Operação Presságio e teria cometido, ao longo de quatro anos, um “assalto aos cofres públicos”.

Ex-secretário de Turismo de Florianópolis, Ed Pereira, investigado pela operação presságio

Ex-secretário de Turismo de Florianópolis, Ed Pereira, é apontado como líder de organização criminosa formada dentro da administração pública – Foto: Leo Munhoz/ND

Ed Pereira teria montado “uma estrutura empresarial”, com apoio de diversos servidores públicos e particulares, para organizar um esquema descrito como “complexo” e “fraudulento”, com a única finalidade de desviar dinheiro público. Cada núcleo tinha uma função bem definida dentro da organização criminosa, bem como seus integrantes.

  • Samantha Bastos

Logo abaixo dele, no esquema, está o núcleo administrativo e financeiro, formado por Samantha Santos Brose, esposa de Ed, e Renê Raul Justino. Eles atuavam como articuladores do esquema criminoso e tinham total poder de decisão, sob supervisão de Edmilson Pereira.

Junto com o marido, Samantha era responsável pelos projetos sociais realizados pelo Instituto Bem Possível, organização da sociedade civil usada para cometimento das ilegalidades. O casal também fazia uso de pessoas interpostas (laranjas) para maquiar “o verdadeiro objetivo dos projetos sociais, que era o desvio de dinheiro público em proveito próprio”, conforme aponta a investigação.

  • Renê Justino

Renê Raul Justino é apontado como o “testa de ferro” do casal, braço direito de Ed Pereira e laranja no esquema. Segundo o relatório, o dinheiro desviado era destinado a uma “caixinha” administrada por Renê e, posteriormente, transferido para conta bancária de Samantha, ou ainda, destinado ao pagamento de despesas pessoais de Samantha.

Prisão da segunda fase da operação presságio

Quatro pessoas foram presas na segunda fase da Operação Presságio, em 2024 – Foto: Divulgação/Polícia Civil/ND

Uma conversa entre Renê e Samantha, interceptada pela Operação Presságio em abril de 2021, escancarou o modus operandi do grupo em relação ao Instituto Bem Possível. Cabia, ao núcleo administrativo e financeiro, “apresentar e aprovar o projeto com um plano de trabalho que utilizasse o valor global previsto no edital”, mas a execução aconteceria com valor diferente do aprovado.

“O desvio era operacionalizado no momento da prestação de contas, oportunidade em que as notas fiscais ideologicamente falsificadas eram apresentadas por laranjas, pessoas que não haviam prestado efetivamente o serviço descrito”, diz a investigação.

Após o repasse dos valores para a conta dos laranjas, Samantha repassava a orientação de como deveriam proceder para que o dinheiro chegasse até ela e o marido, Ed Pereira. A Controladoria Geral do Município de Florianópolis informou à Polícia Civil que o Instituto Bem Possível recebeu R$ 875.169,63 entre os anos de 2017 e 2023.

Núcleo operacional

A terceira camada da organização criminosa, revelada pela Operação Presságio, consistia na parte operacional do grupo. Este núcleo era composto por servidores públicos municipais, especialmente comissionados, e alguns particulares.

Estes investigados eram os responsáveis por operar o esquema de dentro da secretaria de Turismo de Florianópolis. A função dos servidores era “facilitar a aprovação dos projetos apresentados pelas organizações da sociedade civil, controladas por integrantes do grupo e por aliados, assim como, para aprovação das contas apresentadas”, diz a Polícia Civil.

Alguns dos participantes do núcleo operacional atuavam na iniciativa privada, mas agiam como se ocupassem cargos públicos.

  • Gilliard dos Santos

Gilliard Osmar dos Santos, um dos integrantes dessa ala e também indiciado no processo, é apontado como “pessoa de confiança de Edmilson Pereira e de Samantha Santos Brose, uma espécie de office boy da organização criminosa”.

A investigação aponta que ele era o responsável por transportar dinheiro ilícito em espécie, a mando de Ed, realizava pagamentos e depósitos bancários. Gilliard também emprestava a própria conta bancária e também da esposa para a movimentação de valores. Ele ainda administrava os imóveis de locação de Ed e prestava serviços para o ex-secretário e a esposa.

  • Lucas da Rosa Fagundes

Lucas Fagundes integrava o núcleo operacional da suposta organização criminosa e, segundo demonstrado pela Operação Presságio, ocupara cargos comissionados na prefeitura de Florianópolis, secretaria de Turismo e Câmara Municipal de Florianópolis desde 2017. A principal função dele, segundo a investigação, era usar “seus conhecimentos em tecnologia para burlar as prestações de contas dos projetos sociais”.

Lucas era quem operacionalizava prestações de contas em sistemas e resolver as inconsistências das prestações das organizações que a suposta organização criminosa detinha controle. Cabia a ele, também, conforme investigado, aprovar as contas e não criar embaraços para os devidos pagamentos.

Núcleo dos laranjas

A última esfera da Organização Criminosa, revelada pela Operação Presságio, continha seis integrantes, todos cadastrados como MEI (Microempreendedor Individual) e que eram responsáveis por emitir as notas fiscais referentes à prestação de serviços que não foram realizados, ou realizados parcialmente, pela organização social.

  • Ezequiel Lima

Conforme constatado pela Polícia Civil, Ezequiel Luiz Costa de Lima, um dos integrantes do núcleo dos laranjas, emitiu aproximadamente 30 notas fiscais para as organizações sociais vinculadas ao grupo criminoso, totalizando R$ 104.402.

  • Evelyn da Silva

Evelyn Caroline da Silva, companheira do integrante do núcleo operacional, Cleber José Ferreira, realizou a emissão de 84 notas fiscais, entre 2021 e 2023, totalizando o valor de R$ 130.350. A investigação acredita que todas as notas eram fraudulentas.

  • Vanessa Espíndola Martinelli

Vanessa Martinelli também atuava na emissão de notas fiscais fraudulentas, a partir do intermédio de Renê Raul Justino. De acordo com a investigação, as contas bancárias da investigada receberam o valor de R$91.600,00 recebidos de dez organizações da sociedade civil. Ela também teria realizado repasse de valores para Samantha Brose.

Contrapontos

A reportagem do ND Mais localizou, até o momento, os advogados de quatro dos 23 indiciados pela polícia civil, no âmbito da Operação Presságio, e procura as defesas dos demais envolvidos.

Por ora, somente as defesas de Renê Raul Justino, Ed Pereira, Samantha Brose e Vanessa Martinelli se manifestaram. O casal de advogados, Wiliam Shinzato e Marina Shinzato, que representa Renê, informou que “ainda está analisando a situação jurídica e se manifestará em momento oportuno”.

A defesa de Ed Pereira e Samantha Brose, representada pelo advogado Cláudio Gastão, informou que “não vai se pronunciar até a manifestação do Ministério Público” e que irá “aguardar a tramitação do processo para divulgar posicionamento em nome dos clientes”. O mesmo foi informado pela defesa de Vanessa Martinelli, que está “analisando todo o teor do inquérito e aguarda manifestação do Ministério Público para se manifestar”.

O espaço segue aberto para todos os envolvidos e será atualizado conforme manifestação.

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