Fabricantes de Máquinas Agrícolas na Argentina Falam em “Não Deixar Passar o Último Trem”

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A chegada de produtos da China e do Brasil está aumentando e gerando um efeito negativo na indústria local da Argentina. A isso se soma uma queda nas vendas e na produção. O que acontecerá com o nível de emprego e o futuro das fábricas de maquinas agrícolas do país?

Fato é que há uma combinação de fatores que complica esse setor na Argentina. A queda da demanda, somada a uma maior inclinação do governo pela abertura das importações, faz com que hoje o nível de vendas – e de atividade – atinja números que começam a gerar certa preocupação.

“As vendas estão na metade do que seria um bom ano; isso quer dizer que temos gente sobrando. Há muita capacidade ociosa”, disse à Forbes o presidente da Câmara de Fabricantes de Máquinas Agrícolas (Cafma), Enrique Bertini. “Poderíamos vender mais que o dobro do atual.”

O dirigente aponta, inclusive, que há uma certa lógica que leva a pensar que essa situação pode se agravar. “Tem a ver com o discurso que vem do próprio governo, onde se priorizam as importações, com um custo para a indústria local”, afirma.

Segundo os últimos números da Associação de Concessionários de Automotores da República Argentina (Acara), e como já vinha acontecendo desde o final do ano passado, em janeiro as vendas de colheitadeiras, tratores e pulverizadores caíram, com retrações que variaram entre 11% e 17%, dependendo do segmento.

Ainda de acordo com os números oficiais, o ano começou com o emplacamento de 38 colheitadeiras, o que implica uma queda de 17,4% em relação às 46 unidades de dezembro, embora tenha havido uma melhora anual de 72,7% em comparação com as 22 unidades de janeiro de 2024. Essa melhora, embora bastante notável, só se verifica em relação a 2024, já que é o único sinal positivo nas últimas comparações interanuais de janeiro.

No caso dos tratores, a tendência é mais otimista. Em janeiro foram emplacadas 386 unidades, ou seja, uma queda de 13,3% em comparação com as 445 unidades de dezembro, e um aumento de 33,6% se a comparação for interanual, já que em janeiro de 2024 haviam sido registradas 289 unidades. E se forem considerados os últimos cinco anos como medida, o indicador também é positivo, já que janeiro de 2025 só fica atrás de 2023.

Em ambos os casos, de todo modo, cabe uma ressalva. Tanto as colheitadeiras quanto os tratores chegam como autopeças do Brasil, sendo montados na Argentina. “Esse trem já perdemos faz tempo; aqui não se fabrica”, aponta Bertini, e ressalta que “o que temos que conseguir agora é que isso não continue acontecendo”.

O relatório do Indec (Instituto Nacional de Estatísticas e Censos) também mostra que no quarto trimestre de 2024 a venda de máquinas agrícolas movimentou 571,9 bilhões de pesos, um aumento de 275,5% em relação ao mesmo período de 2023.

Diante desse panorama, o que resta ver agora é como o setor começará a se reorganizar. Bertini explica que o que a indústria local não deveria fazer é “começar a fabricar produtos de massa”, onde não há chances de competir com as máquinas que chegam, sobretudo, da China.

Essa análise tem um forte respaldo nos números. Durante o último ano, o setor acumulou um saldo negativo de US$ 22 milhões, após ter alcançado um superávit de US$ 42 milhões em 2023.

Inclusive, as importações vindas do Brasil se expandiram 53,3% (US$ 1,438 bilhão) em fevereiro passado, acima das exportações, que cresceram 46,9% (US$ 337 milhões).

A perspectiva do setor é que essa tendência se intensifique com a política importadora do governo, impulsionada pelos preços muito competitivos dos produtos chineses.

Dentro desse contexto, será preciso esperar para ver como o setor industrial reagirá, primeiro na gestão do quadro de funcionários, e depois com a continuidade de algumas plantas.

“O termômetro do que ocorre com a movimentação de pessoal está, sobretudo, nas empresas menores, que são fornecedoras das grandes. Vivem do dia a dia e, se a demanda por seus produtos diminuir, certamente precisarão repensar seu negócio”, diz Bertini.

Durante o último ano essa situação já começou a impactar, por exemplo, no caso dos empregados terceirizados, que são contratados pelas companhias em tempos de maior produtividade — o que justamente não é o caso agora.

Hoje a indústria local — cerca de 1.200 empresas — emprega entre 30 mil e 35 mil funcionários, contra cerca de 45 mil que chegaram a ser empregados.

O que não se observa, ao menos por enquanto, é uma redução na quantidade de empresas fabricantes de máquinas, embora também não seja uma opção totalmente descartada.

Se a queda da demanda não parar, seguramente em algum momento começará uma reavaliação da situação. Inclusive, não são poucos os que acreditam que — como já ocorreu em outro momento — alguns atores mudem de papel e deixem de ser fabricantes para se tornarem importadores.

Liquidação não melhora cenário

Como parte desse cenário negativo também se deve somar outro ponto fraco do campo, ou seja, a liquidação das exportações, fundamental para o ingresso de dólares no país.

Nos últimos dias, a venda dos agroexportadores caiu mais de 30%, uma tendência que já vinha sendo percebida com a falta de respostas ao pedido de melhora nas condições de exportação, mas que agora se agrava pela ausência de definições sobre o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), sobretudo no que diz respeito à política cambial.

É que, diante disso, a venda de grãos pelos produtores de soja e milho hoje praticamente não registra movimentações, justamente à espera de saber o que acontecerá com o câmbio. Assim, das 200 mil toneladas diárias passou-se rapidamente para 30.000 toneladas diárias.

E quanto mais se prolongar esse tempo de incerteza, esse panorama não deverá mudar, já que, até que os produtores tenham clareza sobre o contexto em que terão que operar, optarão por não mover fichas.

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