Quem era a idosa que morreu por dengue em Chapecó? ‘Sábia e amável’, diz neta

Conhecida como uma mulher de fé e sempre com um sorriso no rosto, dona Maria Narciso, de 85 anos, deixou saudades e um vazio no coração dos familiares. Maria foi a primeira vítima fatal da dengue em Chapecó, no Oeste de Santa Catarina. Ela faleceu no dia 24 de março, no HRO (Hospital Regional do Oeste), onde estava internada.

Maria Narciso morreu por dengue

Dona Maria Narciso tinha 85 anos e morreu no dia 24 de março. – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

“Minha avó era uma mulher de 85 anos lúcida, forte, temente a Deus. Ela fazia comida, lavava roupas, além de todos os afazeres básicos da casa”, revela a neta Mayara Gromovski, de 23 anos.

Segundo Mayara, a avó era analfabeta e havia frequentado apenas até a 4ª série do ensino fundamental, mas demonstrava muita sabedoria e inteligência.

“Todos que a conheciam gostavam dela, pois era uma pessoa muito amável e carismática. Fazia parte da igreja e sempre ajudou quem mais precisava. Fazia orações pelas pessoas doentes e falava de Jesus para quem quer que fosse”, lembra a neta com carinho e saudade.

Maria deixou 6 filhos, 16 netos e 7 bisnetos. “Que sejamos como ela, contadora de histórias, fortes e firmes na fé do Senhor Jesus. Dona Maria foi amada por todos e agora descansou, está nos braços de Deus. No dia 03 de abril completaria seus 86 anos”, lembra a neta.

Segundo ela, a avó nunca gostou de tristeza e não queria ninguém chorando em seu velório. “Ela dizia: – Vocês nunca me viram sofrendo ou chorando, então, não quero ninguém chorando também”.

Os primeiros sintomas da dengue

Os primeiros sintomas começaram no dia 16 de março. Fraqueza, dores no corpo, na cabeça e na barriga. Preocupados com a saúde de Maria, familiares a levaram até a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) 24 horas no dia 18 de março, onde coletou exames.

Mayara conta que com a suspeita de dengue, a família achou melhor fazer um exame em um laboratório particular. Com o resultado positivo em mãos, retornaram à unidade para atendimento.

No dia 20 de março, Maria foi até o posto de saúde do bairro onde morava para realizar exames de plaquetas, as quais já estavam baixas.

“No mesmo dia ela foi levada ao HRO com a piora dos sintomas e se sentindo cada vez mais fraca. Após pernoitar no hospital foi liberada na manhã seguinte e em casa se sentia muito debilitada. Naquele dia ela supostamente teve um AVC, urinou, vomitou, perdeu os movimentos das pernas e a fala. Novamente voltou ao hospital”, detalha a neta.

Na noite do dia 20 de março a família recebeu a informação de que Maria teria apenas 1 hora de vida e os familiares foram liberados para se despedirem. Porém, a força de Maria a manteve viva por mais quatro dias.

No dia 22 foi internada, mas no dia 23 o rim da idosa parou e na madrugada do domingo, dia 24, Maria deu seu último suspiro. “Minha tia estava com ela no momento e ela simplesmente deu um grande suspiro e morreu”, revela a neta.

Chapecó tem mais de 900 casos confirmados da dengue. – Foto: Freepik/Banco de Imagens/ND

Causa da morte

Na declaração de óbito de Maria consta que a idosa morreu em decorrência de um choque hipovolêmico, insuficiência cardíaca e hipertensão arterial sistêmica.

“Ela realmente tinha pressão alta e um problema no coração, mas isso era controlado e nunca deu nenhum problema maior. Ela sempre tomou os remédios corretamente”, comenta Mayara.

Alguns dias após a morte de Maria, a família teria entrado em contato com o hospital para questionar o motivo de não conter dengue entre as causas da morte.

O exame do Lacen (Laboratório Central de Saúde Pública) confirmando que a idosa havia contraído a dengue chegou para a família no dia 2 de abril.

O HRO informou que “a rigor, quem define o que coloca na causa da morte é o médico. A instituição não intervém na relação médico-paciente”.

Em relação a inconformidades eventualmente constatadas pelos familiares, a orientação é registrar uma queixa junto à Ouvidoria do hospital expondo a situação, pedindo esclarecimentos, e até correções, se for o caso, no prontuário da paciente.

Conforme a DIVE/SC, os dados da dengue em Santa Catarina são disponibilizados no painel público. “A DIVE utiliza os dados do SINAN. São dados que os municípios precisam notificar”, informou a Diretoria.

Com relação à demora para o resultado do exame de dengue, a prefeitura de Chapecó se manifestou via nota e informou que segue a Nota Técnica orientativa da DIVE/SC (Diretoria de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina).

Veja a nota na íntegra:

Em relação à demora na divulgação da confirmação do óbito por dengue a Vigilância em Saúde informa que segue a Nota Técnica 07/2024 orientativa da Divisão de Vigilância Epidemiológica do Estado de SC (DIVE), a qual orienta que o diagnóstico só pode ser dado após análise de exame oriundo do Laboratório de Análises Clínicas de Santa Catarina (Lacen), pois o exame padrão ouro para diagnóstico de dengue é o Reação em Cadeia da Polimerase (PCR).

Este exame é realizado somente em Florianópolis. Dessa forma, demanda, além do tempo de transporte, o tempo de preparo e processamento da amostra pelo LACEN, o que demora um tempo, especialmente deste período de epidemia da doença no estado, onde o próprio Lacen, tem muitas demandas. Por isso, o tempo de demora para confirmação laboratorial.

Dados da dengue em Chapecó

Chapecó já tem 941 casos confirmados da doença. Por isso, a secretaria de Saúde tem adotado várias medidas, como ampliação dos mutirões de combate ao mosquito Aedes aegypti, abertura do Ambulatório Covid/Dengue no bairro Saic e capacitação dos profissionais para o atendimento.

A orientação da secretaria é para que as pessoas fiquem atentas aos possíveis criadouros, ao uso de repelente e que busquem atendimento na unidade de saúde do bairro ao notar os primeiros sintomas da doença.

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